Durante aproximadamente 25 anos, falar em máquina de tatuagem fabricada no Brasil inevitavelmente levava a uma marca: Electric Ink.
A empresa nasceu justamente quando conseguir equipamento profissional por aqui era outra realidade. Importados custavam caro, havia pouca oferta e o tatuador brasileiro precisava muitas vezes adaptar, construir ou trabalhar com o que estivesse disponível.
Agora, um quarto de século depois, esse capítulo começa a mudar.
Paulo Fernando, fundador da Electric Ink, anunciou que a empresa não continuará produzindo máquinas de tatuagem em escala comercial para venda ao público.
O estoque existente ainda deve abastecer por algum tempo o sistema de assinatura da empresa, e a assistência às máquinas já vendidas continuará. Segundo Paulo, a companhia preparou inclusive estoque de componentes para manter peças de reposição disponíveis durante muitos anos.
Mas novas linhas de produção destinadas ao mercado tradicional deixam de fazer parte do plano.
À primeira vista, parece simplesmente a saída de um fabricante de um segmento.
Só que talvez seja uma notícia bem maior.
Ela diz alguma coisa sobre como a tatuagem brasileira está mudando.
Uma história que começou pela falta de máquinas
No início dos anos 2000, o mercado brasileiro de equipamentos para tatuagem era muito diferente do atual.
Segundo o próprio Paulo Fernando, máquinas estrangeiras de alto nível podiam custar vários salários mínimos, enquanto boa parte do equipamento produzido nacionalmente ainda oferecia desempenho limitado.
Foi dentro dessa realidade que começaram os primeiros projetos que dariam origem à Electric Ink.
A empresa conta oficialmente que sua história começou em 2000, a partir do trabalho de um tatuador, um torneiro mecânico e dois ajudantes tentando desenvolver uma máquina para uso próprio. Hoje a companhia afirma possuir quase 300 colaboradores e exportar produtos para mais de 30 países.
O que inicialmente resolvia uma necessidade pessoal acabou se transformando em indústria.
Paulo afirma que, nesse período, foram produzidas centenas de milhares de máquinas entre modelos de bobina e rotativos.
Por isso, a interrupção não representa simplesmente tirar alguns produtos de uma prateleira.
É o encerramento de uma longa fase da fabricação brasileira de equipamentos profissionais de tatuagem.
Então as máquinas Electric Ink acabaram?
Não exatamente.
Essa distinção é importante.
Segundo o anúncio de Paulo Fernando, termina a produção comercial contínua destinada à venda convencional, mas a empresa continuará oferecendo suporte e peças para equipamentos existentes.
Também continuará existindo o modelo de assinatura enquanto houver estoque disponível.
Hoje, inclusive, a plataforma Electric Ink Sempre apresenta equipamentos disponibilizados através desse modelo de locação/assinatura.
A empresa também mantém páginas de máquinas e componentes no catálogo oficial, algo compatível com uma fase de transição de estoque, assistência e reposição.
Outro ponto curioso é que máquinas continuarão sendo produzidas em pequena escala para artistas patrocinados e para necessidades internas de desenvolvimento.
Ou seja: a Electric Ink não abandonou conhecimento de engenharia de máquinas.
Ela está deixando de transformar esse conhecimento em uma linha de fabricação comercial ampla.
Essa diferença importa bastante.
Por que fabricar máquinas deixou de fazer sentido?
Durante a transmissão, Paulo apresentou basicamente três motivos:
- custo industrial brasileiro;
- tributação e importação de componentes;
- concorrência crescente de equipamentos produzidos na China.
Há ainda um quarto elemento, talvez menos mensurável, mas muito presente em sua fala: o desgaste de manter uma operação industrial complexa com margem considerada pequena pela empresa.
Segundo Paulo, algumas máquinas tinham margem próxima de 10%.
Quando entram desenvolvimento, componentes eletrônicos, usinagem, montagem, assistência técnica, garantia, estoque e estrutura operacional, produzir uma máquina sofisticada no Brasil pode acabar competindo com equipamentos importados desenvolvidos dentro de cadeias industriais muito maiores.
E é aqui que a conversa fica interessante.
O problema não é simplesmente “China contra Brasil”
Seria tentador transformar essa história numa batalha confortável: produto brasileiro bom contra máquina chinesa barata.
Só que a realidade é bem menos arrumadinha.
A China deixou há bastante tempo de produzir apenas equipamentos de baixo custo.
Hoje existem fabricantes chineses com excelente capacidade de usinagem, eletrônica, baterias, motores e produção em escala.
Também existe uma enorme quantidade de equipamento genérico, copiado ou pouco documentado.
As duas coisas coexistem.
Da mesma forma, um produto ser fabricado no Brasil não garante automaticamente superioridade técnica.
A discussão correta precisa ser outra: engenharia, controle de qualidade, assistência, segurança, ergonomia, durabilidade e desempenho.
É isso que deveria determinar o valor de uma máquina.
Não a bandeira impressa na caixa.
O tatuador mudou a maneira de comprar máquinas
Existe também uma mudança cultural.
Durante décadas, uma máquina podia acompanhar um tatuador por muitos anos.
Bobinas eram reguladas, desmontadas, modificadas e praticamente faziam parte da identidade do artista.
Com as pens atuais, parte dessa relação mudou com bateria integrada, motor compacto, eletrônica, display, curso ajustável, corpo fechado e atualizações frequentes.
A máquina começou a se aproximar da lógica de outros produtos tecnológicos.
Compra-se uma hoje e, meses depois, aparece outra mais silenciosa, mais leve, com bateria maior ou curso diferente.
Isso criou um mercado muito mais veloz.
E velocidade favorece justamente quem possui uma cadeia de fabricação gigantesca.
Quando o preço passa a decidir mais que a engenharia
Existe uma pergunta incômoda aqui.
O tatuador consegue perceber a diferença entre uma máquina tecnologicamente sofisticada e uma máquina simplesmente competente?
Porque são coisas diferentes.
Se uma máquina de R$ 1.500 entrega 90% da experiência que determinado profissional precisa, talvez ele simplesmente não veja sentido em investir R$ 5.000 ou R$ 6.000 para obter os outros 10%.
Ainda que esses 10% tenham exigido muito mais engenharia.
Isso acontece em diversas indústrias.
Chega um momento em que a tecnologia alcança um nível suficientemente bom para a maioria dos usuários.
Depois disso, convencer alguém a pagar pela excelência passa a ser muito mais difícil.
E talvez parte do mercado de máquinas de tatuagem esteja exatamente nesse ponto.
Mas perder uma fabricante brasileira é ruim?
Em vários aspectos, sim.
Mesmo quem nunca utilizou uma máquina Electric Ink deveria olhar para essa mudança com certa preocupação.
Ter desenvolvimento industrial dentro do próprio país significa possuir gente estudando problemas específicos dos nossos profissionais: Engenheiros, projetistas, torneiros, eletrônica, usinagem, assistência, experimentação…
Quando esse conhecimento deixa de estar associado a uma produção comercial, o mercado perde diversidade.
E concorrência não acontece apenas no preço.
Também acontece através de ideias.
Uma fabricante brasileira desenvolvendo mecanismos próprios força outras empresas a responderem tecnicamente.
Menos fabricantes significam menos caminhos sendo experimentados.
Existe também uma questão de assistência técnica
Talvez esse seja um dos pontos menos comentados quando comparamos máquinas nacionais e importadas.
Comprar é apenas a primeira parte da relação com um equipamento profissional.
Depois vêm:
- bateria;
- motor;
- rolamentos;
- componentes internos;
- conectores;
- desgaste mecânico;
- quedas;
- assistência;
- peças.
Paulo afirmou que a Electric Ink pretende disponibilizar componentes individualmente para que proprietários possam fazer manutenção diretamente com a empresa ou recorrer a técnicos independentes.
Se essa estrutura funcionar como prometido, ela pode se tornar um legado bastante interessante da linha de máquinas.
Porque equipamento profissional reparável é uma discussão que vai muito além da tatuagem.
Curiosamente, a Electric Ink não está diminuindo sua tecnologia
Esse talvez seja o ponto mais interessante da história.
A empresa não parece estar abandonando pesquisa e desenvolvimento.
Está mudando onde coloca essa capacidade.
A própria Electric Ink se apresenta atualmente como fabricante de máquinas, tintas, cosméticos, acessórios e outros produtos desenvolvidos no Brasil, com atuação internacional.
E alguns lançamentos recentes ajudam a entender a nova direção.
Entre eles estão novas formulações de pigmentos como Ultra Tribal Black EG (Dark Vader), Red EG (Satanic Red) e Orange EG (Crazy Orange), já apresentados no catálogo oficial.
Há também uma nova geração de cartuchos sendo desenvolvida pela empresa.
E aqui talvez esteja acontecendo algo muito maior.

O cartucho pode ser mais estratégico que a máquina
Uma máquina é comprada ocasionalmente.
Um cartucho é consumido todos os dias.
Essa pequena diferença muda completamente a lógica industrial.
Imagine dois produtos.
Um tatuador compra uma máquina e trabalha com ela por três, quatro ou cinco anos.
Mas pode usar centenas ou milhares de cartuchos durante o mesmo período.
Do ponto de vista de uma fábrica, são negócios completamente diferentes.
Cartuchos significam produção recorrente.
Volume.
Padronização.
Melhoria contínua.
Escala.
E, principalmente, contato diário com o trabalho do tatuador.
Se a Electric Ink conseguir realmente elevar o nível técnico dos cartuchos, talvez deixar de fabricar máquinas não represente uma retração.
Pode representar uma concentração de engenharia onde existe impacto maior e recorrente.
Produzir a própria agulha muda bastante o jogo
Outro detalhe merece atenção.
Paulo afirmou que a empresa passou a fabricar internamente agulhas utilizadas em seus novos cartuchos, incluindo configurações como 3RL.
Isso pode parecer pequeno para quem olha apenas para o produto pronto.
Industrialmente, não é.
Quanto mais etapas importantes uma empresa controla, maior tende a ser sua capacidade de:
- especificar tolerâncias;
- testar materiais;
- controlar geometria;
- desenvolver novas configurações;
- identificar problemas;
- ajustar produtos com rapidez.
Esse processo costuma ser chamado de verticalização da produção.
E pode ser muito mais estratégico para a tatuagem brasileira do que simplesmente lançar mais um modelo de pen.
Existe ainda uma questão que não pode ser ignorada: segurança
Tintas, agulhas, cartuchos e equipamentos utilizados em tatuagem não são produtos comuns.
Existe uma dimensão sanitária importante.
Em março de 2026, por exemplo, a Anvisa determinou a apreensão e proibição de uma máquina e de tintas para tatuagem que não possuíam os registros sanitários exigidos.
A própria Agência já reforçou que equipamentos e tintas utilizados em tatuagem estão sujeitos às regras sanitárias brasileiras.
Isso coloca outra camada na discussão.
Preço importa.
Tecnologia importa.
Mas rastreabilidade, regularização e controle de fabricação também importam.
Especialmente para produtos que entram em contato direto com procedimentos que rompem a barreira da pele.
E os impostos?
Paulo dedica boa parte da explicação à carga tributária e aos custos para importar componentes utilizados nas máquinas.
É importante separar duas coisas.
Os percentuais específicos dependem da operação, do produto, da classificação fiscal e do regime de importação. Não seria correto transformar números citados numa transmissão em uma regra universal.
O próprio governo disponibiliza ferramentas em que a tributação precisa ser consultada de acordo com a classificação NCM e com a operação realizada.
Portanto, o argumento central faz sentido enquanto problema industrial relatado pela empresa, mas uma análise tributária rigorosa exigiria abrir componente por componente.
E isso merece, inclusive, outro artigo.
As máquinas chinesas venceram?
Talvez essa seja a pergunta errada.
O que parece estar vencendo é uma estrutura mundial de fabricação em escala.
A China está no centro dela.
Mas empresas americanas, europeias e de outras regiões também utilizam fornecedores, componentes e linhas produtivas chinesas.
Por isso, discutir simplesmente a nacionalidade da máquina oferece pouco.
A pergunta realmente útil para o tatuador é:
quem projetou, quem fabrica, quem controla, quem testa e quem responde quando alguma coisa dá errado?
Isso vale muito mais que a bandeira estampada na embalagem.
Podemos perder de um lado e ganhar do outro
Existe uma ironia interessante nessa história.
O mercado brasileiro pode perder uma fabricante relevante de máquinas justamente quando essa mesma empresa passa a investir mais profundamente em outros componentes fundamentais da tatuagem.
Máquinas chamam atenção.
São bonitas.
Aparecem na bancada.
Viraram objeto de desejo.
Mas tinta e cartucho estão literalmente acontecendo dentro da tatuagem.
Se houver avanço relevante nesses produtos, talvez a contribuição técnica resultante seja até maior.
Só será menos chamativa no Instagram.
O anúncio também deveria fazer o mercado brasileiro pensar
Talvez não seja apenas uma história sobre Electric Ink.
Talvez seja sobre nós.
Durante muito tempo, o tatuador brasileiro lutou para ter acesso a equipamento profissional.
Quando começou a existir indústria nacional capaz de desenvolver máquinas próprias, o mercado mudou novamente e recebeu uma avalanche de produtos internacionais.
Isso é positivo porque aumenta opções e pressiona preços.
Mas existe um outro lado.
Se todas as decisões forem tomadas exclusivamente pelo preço imediato, podemos acabar criando um mercado com enorme variedade de produtos e pouca capacidade industrial própria.
Encontrar equilíbrio entre essas duas coisas provavelmente será um dos desafios da próxima década.
O que muda agora para quem já possui uma Electric Ink?
Pelo que foi anunciado, não existe motivo imediato para pânico.
A promessa da empresa é manter:
- assistência técnica;
- peças de reposição;
- manutenção;
- componentes individuais;
- suporte aos equipamentos existentes.
Além disso, algumas máquinas continuarão disponíveis temporariamente através do sistema de assinatura.
Portanto, quem já possui uma máquina da marca não ficou, da noite para o dia, com um equipamento órfão.
O verdadeiro impacto deverá aparecer aos poucos.
Será preciso observar durante os próximos anos como funcionarão disponibilidade de peças, assistência e manutenção.
E para quem pretende comprar uma máquina?
Talvez essa mudança torne uma coisa ainda mais importante:
parar de comprar equipamento apenas pela especificação da embalagem.
Curso de 4,0 mm não explica uma máquina.
Voltagem não explica uma máquina.
Motor não explica uma máquina.
Peso também não.
O comportamento real vem da combinação entre geometria, transmissão de força, estabilidade, motor, curso, construção, ergonomia e resposta sobre a pele.
É exatamente por isso que pretendemos aprofundar esse tipo de conteúdo no Tatuagem Brasil daqui para frente.
Menos:
“qual máquina é melhor?”
E mais:
“o que tecnicamente torna uma máquina adequada para determinado trabalho?”
A diferença parece pequena. Mas muda completamente a conversa.
O fim de uma era ou o começo de outra?
É cedo para responder.
A saída da Electric Ink da produção comercial regular de máquinas encerra um capítulo importante da tatuagem brasileira.
Mas também abre outro.
A empresa está direcionando esforço para tintas, cartuchos, agulhas, cosméticos e desenvolvimento industrial.
Talvez daqui a alguns anos olhemos para esse anúncio não como o momento em que a Electric Ink deixou de fabricar máquinas.
Talvez ele seja lembrado como o momento em que uma indústria brasileira decidiu escolher onde sua engenharia faria mais diferença.
E existe uma pergunta maior rondando tudo isso: o Brasil continuará apenas consumindo tecnologia de tatuagem ou ainda conseguirá desenvolvê-la?
Essa discussão está apenas começando.
Você trabalhou com alguma máquina da Electric Ink ao longo desses anos?
Acha que a entrada das máquinas chinesas melhorou o mercado ou fez a indústria brasileira perder espaço?
Conta sua experiência nos comentários. Queremos acompanhar essa mudança também pela visão de quem está todos os dias com uma máquina na mão.
Fontes
- Comunicado em vídeo de Paulo Fernando, fundador da Electric Ink, setembro de 2026.
- Site institucional da Electric Ink.
- Catálogo oficial Electric Ink.
- Electric Ink Sempre.
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária.
- Receita Federal / Portal Único Siscomex.
- Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
Electric Ink institucional
Electric Ink Sempre
Anvisa
MDIC/Siscomex











