Vamos direto ao ponto. Você, cliente, entra em um estúdio e a primeira coisa que procura é a cena clássica: o tatuador abrindo a agulha descartável na sua frente. E você, tatuador, faz questão de mostrar isso. Perfeito. Esse é o passo número um, o básico do básico. Mas e se eu te disser que a verdadeira segurança de uma tatuagem vai muito, muito além disso? E se eu te disser que aquele relógio estiloso, aquele anel de prata ou até mesmo o celular do artista podem ser os vilões silenciosos de uma contaminação?
Hoje, o papo é de responsabilidade máxima. Vamos mergulhar nos detalhes da biossegurança na tatuagem que raramente são discutidos, mas que fazem toda a diferença entre um procedimento seguro e uma roleta-russa com a sua saúde. Este é um guia para artistas elevarem seu padrão profissional e para clientes se tornarem verdadeiros fiscais da própria pele.
O Conceito-Chave: Contaminação Cruzada
Este é o nome do inimigo. Contaminação cruzada é a transferência de microrganismos (bactérias, vírus, fungos) de uma pessoa, objeto ou lugar para outro. Na tatuagem, onde trabalhamos com uma ferida aberta, esse risco é constante. A agulha descartável evita a contaminação direta, mas não impede que uma bactéria presente no relógio do tatuador, por exemplo, “pule” para a luva e, da luva, para a sua pele ferida. É por isso que os protocolos são tão rigorosos.
O Check-list da Verdadeira Biossegurança: O que Artistas e Clientes Devem Observar
Aqui está o que separa um estúdio verdadeiramente profissional de um que apenas “parece” limpo. Fique atento a estes pontos:
1. As Mãos e os Acessórios do Artista
Para Tatuadores: A regra de ouro de qualquer ambiente cirúrgico vale aqui: nada abaixo dos cotovelos. Isso significa que, durante o procedimento, o profissional deve estar sem anéis, pulseiras, relógios ou qualquer tipo de adorno nas mãos e nos pulsos. Esses objetos acumulam sujeira e microrganismos que a lavagem das mãos não consegue eliminar e podem furar a luva sem que você perceba. Suas unhas devem estar curtas e limpas.
Para Clientes: Observe. O artista está usando um relógio vistoso enquanto tatua? Ele tem vários anéis por baixo da luva? Isso é um sinal de alerta vermelho sobre seu comprometimento com as melhores práticas de higiene.
2. O “Encape” Total da Estação de Trabalho
A preparação da bancada é um ritual. Tudo, absolutamente tudo, que pode ser tocado durante a sessão deve ser protegido com filme plástico (plástico PVC).
- A maca
- O borrifador (pisseta)
- A fonte de energia e seu cabo
- A própria máquina de tatuar
Para Tatuadores: Crie o hábito de encapar TUDO. Isso garante que, se sua luva contaminada com sangue ou fluídos tocar em qualquer um desses itens, a contaminação ficará restrita àquele plástico, que será descartado ao final.
Para Clientes: A bancada parece uma cena de filme, toda plastificada? Ótimo sinal! Se você vê o borrifador ou a fonte “nus”, sem proteção, desconfie.
3. O Uso (e o Descarte) Correto das Luvas
A luva é uma barreira de mão única. Uma vez que você tocou na pele do cliente, na máquina ou em qualquer superfície, ela está potencialmente contaminada.
- Para Tatuadores: Precisou pegar o celular? Atender a porta? Coçar o nariz? TIRE AS LUVAS, HIGIENIZE AS MÃOS, E COLOQUE UM PAR NOVO. Nunca, jamais, saia do procedimento com as luvas e depois volte a tocar no cliente com o mesmo par.
- Para Clientes: O tatuador atendeu uma ligação no meio da sua sessão sem trocar as luvas? Isso é uma falha grave de protocolo. Não tenha medo de apontar e pedir a troca. É a sua saúde.
Conclusão: Biossegurança é um Hábito, não um Ato
A biossegurança na tatuagem não é um show para o cliente. É um conjunto de hábitos invisíveis que o profissional pratica incansavelmente, mesmo quando ninguém está olhando. É a diferença entre uma profissão levada a sério e um hobby perigoso. Para os artistas, adotar esses hábitos é um sinônimo de respeito pela própria arte e carreira. Para os clientes, aprender a observar esses detalhes é o poder de fazer uma escolha verdadeiramente segura e proteger a própria vida.
Você, tatuador, já tem algum outro “truque” de biossegurança que considera essencial? E você, cliente, já reparou em algum desses detalhes no seu estúdio de confiança? Conte para nós nos comentários!












